Um morador de Pirenópolis publicou um vídeo nas redes sociais após a realização do show de Zezé Di Camargo, uma das principais atrações das comemorações pelos 299 anos da cidade. Em tom crítico, ele questiona as prioridades do poder público e compara os investimentos destinados à realização de eventos com problemas de infraestrutura, saneamento, limpeza urbana e saúde que, segundo ele, continuam afetando os moradores.
A fala ganhou repercussão principalmente pelo trecho em que o morador afirma: “Mirosmar não resolve buraco”. Mirosmar é o nome de batismo de Zezé Di Camargo, cantor nascido em Pirenópolis e atração principal da programação de aniversário do município. O show foi realizado no dia 7 de outubro, no Largo da Matriz, com entrada gratuita.
Morador questiona prioridades da administração
No vídeo, o morador cita diferentes problemas que, na avaliação dele, deveriam receber atenção da administração municipal.
Entre os pontos mencionados estão as condições das ruas, a ausência de rede de esgoto em grande parte do município, a limpeza urbana e a falta de medicamentos em unidades de saúde e na Farmácia Popular.
Ao falar sobre saneamento, ele afirma que mais de 80% da cidade não possui rede de esgoto.
Esse número, porém, não aparece apenas na fala do morador. Em matéria publicada anteriormente pelo Portal Piri, dados de 2024 do Painel Saneamento Brasil apontam que 80,6% da população de Pirenópolis não tinha acesso à coleta de esgoto, o equivalente a 22.374 pessoas. O mesmo levantamento apontava índice de esgoto tratado em relação à água consumida de 0%.
A questão do saneamento também já apareceu em denúncias encaminhadas ao próprio Portal Piri. Em agosto, um morador enviou ao Fala Piri um vídeo mostrando um líquido escuro correndo por uma via próxima ao Centro, acompanhado, segundo o relato, de forte mau cheiro. O morador afirmou que a situação ocorria diariamente e que o fluxo seguia em direção à Rua Anduseiro.
“Mirosmar não resolve buraco” – Buracos nas ruas também aparecem entre as reclamações
Outro problema citado no vídeo é a situação das ruas.
A reclamação também encontra paralelo em registros recentes publicados pelo Portal Piri. No dia 31 de agosto, moradores e comerciantes da Vila Matutina procuraram o Fala Piri para denunciar um buraco em uma via próxima ao Quartel do Corpo de Bombeiros Militar.
Segundo os relatos enviados à redação, o problema vinha acompanhado de água acumulada e mau cheiro, gerando preocupação entre as pessoas que circulam diariamente pelo trecho.
No vídeo mais recente, o morador amplia essa crítica e questiona se os problemas das ruas continuarão enquanto a cidade recebe investimentos em grandes apresentações musicais.
Quanto custou o show de Zezé Di Camargo?
A discussão sobre os gastos com eventos já havia provocado repercussão em Pirenópolis antes mesmo da apresentação.
Em setembro, o Portal Piri publicou que a Prefeitura de Pirenópolis contratou o show de Zezé Di Camargo por R$ 650 mil. O valor consta no Contrato nº 23/2026, firmado em junho e administrado pelo Fundo Municipal de Desenvolvimento Cultural.
Além do cachê do cantor, outra cifra relacionada à realização de eventos chamou atenção: uma Ata de Registro de Preços com valor máximo de R$ 16.968.953,40, destinada a serviços e estruturas que podem ser utilizados em diferentes eventos municipais durante o período de vigência.
Entre os itens previstos estão sonorização, iluminação, palco, tendas, grades de segurança, banheiros químicos, cadeiras e outros serviços e equipamentos. O valor da ata, no entanto, não corresponde ao gasto do aniversário de Pirenópolis nem significa que todo o montante será necessariamente pago pelo município. Trata-se de um limite para futuras contratações durante a vigência do registro.
Após a repercussão, a Prefeitura também divulgou uma nota esclarecendo os valores. Segundo a administração, o contrato de R$ 8.658.394,90 citado em outra discussão pública corresponde a um Sistema de Registro de Preços para diferentes eventos e não representa uma despesa já realizada ou o custo de um único evento. A Prefeitura reforçou que os valores registrados não devem ser confundidos com os efetivamente empenhados, liquidados e pagos.
“Dinheiro para show tem”
É nesse contexto que o morador faz a principal crítica do vídeo.
“Dinheiro pra show tem, vai trazer a competência pra arrumar dinheiro pra arrumar a cidade?”, questiona.
Em outro trecho, ele menciona um valor superior a R$ 2 milhões e relaciona a cifra aos investimentos em eventos. O valor citado pelo morador, porém, não corresponde ao cachê de R$ 650 mil oficialmente publicado pelo Portal Piri para o show de Zezé Di Camargo.
A crítica apresentada no vídeo, portanto, vai além do preço de uma apresentação específica. O morador questiona a própria prioridade de investir em eventos enquanto, segundo ele, permanecem problemas básicos enfrentados pela população.
Ele também ironiza a realização do show e afirma que a apresentação pode agradar ao público, mas não resolve questões como buracos, saneamento, limpeza ou falta de medicamentos.
“Estou aqui para brigar pela cidade que eu amo”
Ao final da gravação, o morador mantém o tom de cobrança e afirma que não se intimida com possíveis críticas à sua manifestação.
“Joga pedra em mim, não tem problema não, nós aguenta”, diz.
Na sequência, ele explica a razão de continuar fazendo as cobranças: “Eu tô aqui pra brigar pela cidade que eu amo.”
A manifestação coloca em discussão uma questão que acompanha Pirenópolis em um momento particularmente simbólico. A cidade acaba de completar 299 anos e iniciou a contagem regressiva para o tricentenário, que será celebrado em 2027. A programação dos 299 anos reuniu cinco dias de atividades, incluindo apresentações musicais, desfile cívico e programação religiosa.
O debate levantado pelo morador coloca lado a lado duas dimensões de Pirenópolis: a cidade que recebe visitantes, promove eventos e movimenta a economia por meio do turismo e da cultura, e a cidade onde vivem os moradores que lidam diariamente com questões de infraestrutura e serviços públicos.
A realização de eventos pode movimentar comércio, hospedagem, alimentação e outros setores da economia local, aspecto também destacado pelo Portal Piri na cobertura da programação dos 299 anos. Ao mesmo tempo, as cobranças feitas no vídeo chamam atenção para demandas estruturais que ultrapassam a agenda de eventos e dizem respeito ao cotidiano da população.
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