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4 de fevereiro de 2026

Machismo deixa marcas no cérebro das mulheres

Pesquisas internacionais em neurociência associam violência de gênero e discriminação contínua a alterações cerebrais e ao agravamento da saúde mental feminina
Redação
Redação

21 de dezembro de 2025 às 13:27

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A desigualdade de gênero não se manifesta apenas nas estatísticas sociais ou nas relações de poder. Evidências científicas acumuladas ao longo da última década indicam que o machismo e a violência simbólica contra as mulheres produzem efeitos mensuráveis no cérebro, afetando estruturas ligadas à regulação emocional, ao estresse e à saúde mental ao longo da vida.

Pesquisas em neuroimagem, psicologia e saúde pública mostram que viver em contextos marcados por desigualdade de gênero expõe as mulheres a níveis elevados e persistentes de estresse, capazes de alterar o funcionamento cerebral. Esses efeitos não são resultado de diferenças biológicas inatas, mas de ambientes sociais hostis e desiguais.

O que dizem os estudos em neurociência

Em maio de 2023, um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) analisou 7.876 exames de ressonância magnética cerebral de adultos saudáveis em 29 países, cruzando os dados com índices internacionais de desigualdade de gênero.

A pesquisa, intitulada “Country-level gender inequality is associated with structural differences in the brains of women and men”, foi liderada pelo psiquiatra Nicolas Crossley, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, e contou com uma ampla colaboração internacional, incluindo pesquisadores brasileiros da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entre eles o psiquiatra Dr. André Zugman.

Os resultados indicaram que, em países com maior desigualdade de gênero, mulheres apresentam menor espessura cortical no hemisfério direito do cérebro, especialmente em regiões como o córtex cingulado anterior e o córtex orbitofrontal medial. Essas áreas estão diretamente relacionadas à regulação emocional, à resposta ao estresse, à empatia e à tomada de decisões.

Entre os homens, essas alterações não foram observadas com a mesma intensidade, o que reforça a conclusão de que o fator determinante não é biológico, mas social.

Como a desigualdade afeta o cérebro

A neurociência explica esse fenômeno a partir da plasticidade cerebral — a capacidade do cérebro de se modificar conforme as experiências vividas. Situações prolongadas de estresse ativam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), elevando a liberação de cortisol, o principal hormônio do estresse.

Quando essa ativação se torna crônica, o excesso de cortisol passa a ter efeitos neurotóxicos, especialmente em áreas corticais e límbicas, podendo levar à redução da densidade sináptica e da espessura cortical. Em outras palavras, o cérebro registra biologicamente a exposição contínua à violência social e simbólica.

Evidências sobre saúde mental e discriminação

Os achados em neuroimagem dialogam com pesquisas em saúde mental. Um estudo conduzido no Reino Unido pela pesquisadora Ruth Hackett, do King’s College London, acompanhou cerca de 3 mil mulheres ao longo de vários anos, com base em dados longitudinais populacionais.

Publicado entre 2019 e 2020, o estudo mostrou que mulheres que relataram experiências recorrentes de discriminação sexual apresentaram maior risco de ansiedade, depressão, solidão e menor satisfação com a vida, mesmo após o controle de fatores socioeconômicos.

Outras pesquisas longitudinais com mulheres acima dos 52 anos indicam que os efeitos do sexismo são cumulativos: a exposição prolongada à desigualdade de gênero ao longo da vida está associada a piora significativa da saúde mental na maturidade e na velhice, reforçando a ideia de que essas marcas não desaparecem com o tempo.

Violência institucional e o “gender pain gap”

A desigualdade de gênero também se expressa no sistema de saúde. Estudos médicos descrevem o fenômeno conhecido como “gender pain gap”, que indica que mulheres têm maior probabilidade de ter sua dor subestimada, esperar mais tempo por analgésicos e receber diagnósticos tardios.

Sintomas femininos são mais frequentemente atribuídos a causas emocionais ou psicossomáticas, enquanto homens recebem intervenções mais rápidas. Essa desigualdade institucional amplia o sofrimento físico e emocional das mulheres, reforçando o ciclo de estresse crônico e invisibilização.

Uma questão de saúde pública

Os dados científicos convergem para uma conclusão clara: o machismo e a desigualdade de gênero não são apenas problemas culturais ou morais — são fatores de risco para a saúde pública.

Países com maiores índices de igualdade de gênero apresentam menores diferenças estruturais cerebrais entre homens e mulheres e melhores indicadores de saúde mental feminina, sugerindo que políticas públicas, educação e transformações institucionais podem reduzir ou prevenir esses danos.

Quando a violência social se inscreve no corpo

Ao demonstrar que a desigualdade de gênero pode deixar marcas no cérebro das mulheres, a ciência amplia o entendimento sobre os efeitos profundos do machismo. A violência não precisa ser física para ser real: ela se acumula, se repete e se transforma em biologia.

Combater o machismo é, portanto, mais do que uma pauta social. É uma estratégia fundamental para proteger a saúde mental, neurológica e emocional das mulheres, garantindo condições mais justas e saudáveis de vida.

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