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27 de agosto de 2026

PiriCastra Consciente: animais domésticos entre dois mundos

PiriCastra Consciente aborda o lugar dos animais domésticos entre a proteção das RPPNs, a fauna silvestre e a responsabilidade humana pelo abandono.
Junior Vilela
Junior Vilela

27 de agosto de 2026 às 10:11

PiriCastra Consciente: animais domésticos entre dois mundos

A coluna PiriCastra Consciente desta semana aborda o lugar dos animais domésticos entre dois mundos: a natureza silvestre e o ambiente humano. A reflexão parte de um caso recente acompanhado pela ONG PiriCastra, depois que um cão foi abandonado dentro de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), na região da Mata Velha, em Pirenópolis.

O animal precisava ser retirado da reserva. Mas, diante da situação, surgiu uma pergunta fundamental: sair para onde?

As RPPNs nascem de uma escolha generosa e necessária: preservar permanentemente uma parte de uma propriedade privada. Reconhecidas oficialmente, essas áreas são destinadas à conservação da biodiversidade e oferecem abrigo à vegetação nativa e aos animais silvestres diante do avanço das cidades, das estradas, das lavouras e de tantas outras intervenções humanas.

O cachorro abandonado, porém, revelou uma contradição inquietante.

Quando uma onça, um tamanduá, uma seriema ou um lobo-guará atravessa uma RPPN, está em seu ambiente. Quando um cão ou um gato entra na mesma área, porém, passa a ser visto como uma presença indesejada.

Há motivos ambientais para isso. Animais domésticos soltos podem perseguir espécies silvestres, transmitir doenças, disputar alimentos e interferir no equilíbrio do ecossistema. Proteger a reserva significa, portanto, impedir que permaneçam ali.

Mas essa realidade revela algo mais profundo: cães e gatos já não pertencem inteiramente à natureza selvagem. Eles estão em algum lugar entre a mata e a casa, entre o instinto animal e a dependência humana.

PiriCastra Consciente e o lugar dos animais domésticos

Durante milhares de anos, o ser humano selecionou determinadas espécies, controlou sua reprodução e modificou seu comportamento. Transformou antigos lobos em cães de companhia e aproximou os gatos dos povoados, dos celeiros e, finalmente, de nossas casas.

Criamos animais domésticos capazes de viver conosco, interpretar nossos gestos, confiar em nossas mãos e depender de nossa proteção.

Um cachorro doméstico não sabe simplesmente “voltar para a natureza”. Um gato abandonado pode conservar fortes instintos de caça, mas isso não significa que esteja preparado para viver com segurança em um ambiente silvestre.

Ambos sentem fome, sede, medo, frio e dor. Adoecem, sofrem acidentes e procuram a proximidade humana porque foi assim que nós os ensinamos a sobreviver.

Ao mesmo tempo, quando entram em uma área de preservação, podem causar danos à fauna nativa.

Não porque sejam maus ou porque tenham escolhido invadir aquele espaço, mas porque foram colocados pelo ser humano em um ambiente ao qual já não pertencem plenamente.

Assim surge uma espécie de animal situado entre dois mundos.

O cão e o gato não são silvestres, mas continuam sendo animais. Não pertencem à mata, mas nem sempre encontram lugar na sociedade humana. Dependem de nós, embora frequentemente sejam tratados como se pudessem sobreviver sozinhos.

Dentro de casa, são chamados de filhos e membros da família. Quando se tornam inconvenientes, porém, podem ser deixados numa estrada, numa propriedade rural ou em uma área afastada.

E, quando atravessam a cerca de uma reserva, passam a representar uma ameaça ao equilíbrio que tentamos preservar.

Quem criou essa contradição?

Certamente não foram eles.

Foi a humanidade que domesticou esses animais e, ao mesmo tempo, destruiu grande parte dos ambientes naturais.

Depois de ocupar, fragmentar e modificar a paisagem, o próprio ser humano passou a separar pequenas porções de terra para proteger aquilo que ainda resta da vida selvagem.

As RPPNs possuem enorme importância nesse esforço. São áreas privadas protegidas em caráter permanente e criadas para conservar a diversidade biológica, conforme estabelece a legislação brasileira.

A necessidade de impedir a presença de cães e gatos dentro delas não deve ser questionada.

O que precisa ser questionado é o destino dado a esses animais depois de retirados.

Proteger a natureza não pode significar simplesmente pegar um cachorro e abandoná-lo do outro lado da cerca.

A remoção pode ser necessária para preservar a fauna silvestre, mas deve vir acompanhada de uma pergunta fundamental:

Para onde esse animal irá?

Se um cachorro aparece em uma reserva, ele não surgiu ali espontaneamente. Pode ter sido abandonado diretamente, ter se perdido ou ter nascido como consequência da reprodução descontrolada de animais não castrados.

Sua presença quase sempre aponta para uma falha anterior: falta de responsabilidade, identificação, castração, fiscalização ou políticas públicas.

O problema, portanto, não começa com o cachorro dentro da RPPN.

Começa muito antes da cerca.

Animais domésticos entre a mata e a sociedade humana

O animal doméstico abandonado também não deve ser romantizado como “livre”.

Na maioria das vezes, ele não está livre: está desamparado.

Precisa procurar água, alimento e algum ser humano disposto a ajudá-lo. Pode causar impactos sobre a fauna, mas isso não o transforma em inimigo da natureza.

Ele não escolheu ocupar aquele lugar.

Preservar a biodiversidade e proteger cães e gatos não são causas opostas. Na verdade, fazem parte da mesma responsabilidade.

A castração reduz o nascimento de animais sem destino. A guarda responsável impede que cães circulem, cacem ou se reproduzam livremente. A identificação facilita o reencontro com os tutores.

A fiscalização combate o abandono. E uma política pública permanente evita que cada novo caso seja empurrado para moradores, protetores e organizações que já trabalham além de seus limites.

Talvez cães e gatos revelem, de maneira especialmente dolorosa, a nossa própria relação com o planeta.

Nós os afastamos da vida selvagem, fizemos com que dependessem de nós e, quando se tornam inconvenientes, agimos como se pudessem simplesmente retornar à natureza.

Mas eles não podem voltar.

Estão presos no meio do caminho entre o mundo selvagem que perderam e o mundo humano que muitas vezes se recusa a acolhê-los.

Por isso, a presença de um cão ou gato em uma RPPN não deveria provocar apenas a pergunta: “Como vamos retirar esse animal daqui?”.

Deveria provocar outra, muito mais incômoda:

Que espécie de humanidade domestica um animal durante milhares de anos e depois se recusa a assumir responsabilidade pelo destino dele?

Levar o cachorro para um local ainda mais remoto, fora dos limites da reserva, não é uma solução.

É apenas transferir o problema — e praticamente condená-lo a sofrer de fome, sede, doença ou ferimentos até a morte, caso não consiga encontrar novamente um ser humano disposto a ajudá-lo.

A natureza silvestre precisa ser protegida.

Os animais que domesticamos também.

E cabe ao ser humano, autor dessa separação entre os dois mundos, construir uma solução ética para ambos.

Créditos institucionais

PiriCastra Consciente — Coluna de Convidado
Instagram e Facebook: @piricastra
Contato: (62) 98235-7688

 

Leia também: PiriCastra explica a linguagem dos cães e gatos

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