Basta uma panela de arroz com pequi no fogo para que o aroma tome conta da cozinha e desperte lembranças de almoços em família, encontros na roça e receitas transmitidas de geração em geração. Para muitos goianos, o pequi é mais do que um ingrediente: é parte da identidade cultural do estado.
Nesta sexta-feira, 23 de outubro de 2026, Goiás celebra o Dia do Pequi, uma data oficial dedicada a um dos frutos mais conhecidos e apreciados do Cerrado.
A comemoração foi instituída pela Lei Estadual nº 22.229, sancionada em agosto de 2023, após a aprovação de um projeto apresentado pelo deputado estadual Gugu Nader (Agir).
Desde então, o Dia Estadual do Pequi passou a integrar o Calendário Cívico, Cultural e Turístico de Goiás, reconhecendo a importância gastronômica, econômica e cultural do fruto.
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Em Pirenópolis, município que reúne tradições rurais, gastronomia regional e uma forte relação com a natureza, a data também é uma oportunidade para valorizar os alimentos nativos e refletir sobre a preservação do Cerrado.

Dia do Pequi: por que Goiás criou uma data para o fruto?
A criação do Dia Estadual do Pequi teve origem no Projeto de Lei nº 1511/2023, apresentado pelo deputado Gugu Nader à Assembleia Legislativa de Goiás (Alego).
A proposta foi aprovada em dois turnos em agosto de 2023 e posteriormente sancionada pelo Governo de Goiás, transformando-se na Lei Estadual nº 22.229.
A legislação estabelece que a comemoração seja realizada anualmente em 23 de outubro.
Ao justificar a iniciativa, o parlamentar destacou a relevância do fruto para a culinária e a identidade cultural dos goianos.
O objetivo da data é reconhecer uma tradição que ultrapassa as receitas típicas e envolve também o trabalho de coletores, comerciantes, produtores e famílias que dependem do pequi como fonte de renda.
A inclusão no calendário oficial representa um reconhecimento simbólico da importância do fruto, mas também abre espaço para discussões sobre sua valorização econômica e ambiental.
Afinal, celebrar o pequi significa reconhecer não apenas seu sabor, mas também as pessoas e os ambientes naturais ligados à sua produção.
Uma lei para valorizar a identidade goiana
O pequi ocupa um lugar especial na cultura de Goiás.
Sua presença é comum em restaurantes regionais, feiras, mercados e cozinhas familiares, especialmente durante o período de safra.
Para muitos moradores do estado, preparar um prato com pequi é uma tradição associada à convivência familiar e à memória afetiva.
O ingrediente também desperta opiniões fortes. Há quem considere seu sabor irresistível e quem prefira manter distância de seu aroma marcante.
Mas, independentemente das preferências, é difícil negar sua importância na formação da identidade gastronômica goiana.
A escolha de uma data comemorativa reforça justamente esse reconhecimento.
O pequi é um dos grandes símbolos da culinária de Goiás
O pequi é o fruto do pequizeiro, árvore nativa do Cerrado que pertence à família Caryocaraceae.
Uma das espécies mais conhecidas é a Caryocar brasiliense, encontrada em diferentes regiões do Brasil Central.
Por fora, o fruto apresenta uma casca geralmente esverdeada. Em seu interior, estão os caroços envolvidos por uma polpa amarela, oleosa e de aroma característico.
É essa polpa que dá sabor a alguns dos pratos mais tradicionais de Goiás.
O arroz com pequi talvez seja o exemplo mais conhecido, mas o fruto também aparece em preparações com frango, galinhadas, conservas, molhos e outros produtos regionais.
O óleo extraído do pequi também possui aplicações culinárias e pode ser utilizado na fabricação de cosméticos e sabonetes.
A versatilidade ajuda a explicar por que o fruto ocupa um espaço tão importante na cultura alimentar do Cerrado.
Arroz com pequi: um clássico que divide opiniões
Poucos pratos representam tão bem a culinária goiana quanto o arroz com pequi.
A preparação combina arroz, temperos e o fruto, que libera seu sabor e sua coloração durante o cozimento.
O resultado é uma receita de personalidade marcante, capaz de despertar entusiasmo entre seus admiradores.
Outra preparação bastante conhecida é a galinhada com pequi, que reúne ingredientes tradicionais em um prato associado a refeições familiares e encontros coletivos.
Além dessas receitas, o fruto pode ser aproveitado em conservas e diferentes produtos artesanais.
O pequi também faz parte de uma tradição culinária que valoriza ingredientes locais e modos de preparo transmitidos entre gerações.
Em Pirenópolis, onde a gastronomia regional é um dos atrativos para moradores e visitantes, valorizar esses sabores significa também preservar parte da cultura goiana.
Você sabe por que o pequi tem espinhos?
Uma das maiores curiosidades sobre o pequi está escondida sob sua polpa amarela.
O caroço possui numerosos espinhos finos e rígidos, capazes de provocar ferimentos na boca quando o fruto é mordido de maneira inadequada.
Por isso, existe uma recomendação bastante conhecida entre os apreciadores: pequi não se morde; pequi se rói.
A maneira tradicional de consumir o fruto consiste em retirar cuidadosamente a polpa da superfície do caroço, evitando alcançar a camada de espinhos.
Quem nunca comeu pequi deve ter atenção especial, pois os espinhos podem ficar presos na língua, na gengiva e em outras regiões da boca.
Caso ocorra um acidente, o ideal é procurar atendimento de saúde, evitando tentar retirar espinhos profundos com objetos improvisados.

O nome pequi tem origem indígena
A palavra pequi tem origem no tupi e costuma ser interpretada como uma referência à presença de espinhos no fruto.
Essa origem linguística revela uma relação antiga entre as populações indígenas e os recursos naturais do território brasileiro.
Muito antes de o pequi se tornar um símbolo gastronômico de Goiás, diferentes comunidades já conheciam e utilizavam frutos nativos do Cerrado.
O conhecimento sobre os períodos de coleta, as formas de preparo e os usos das plantas faz parte de uma herança cultural construída ao longo de gerações.
Por isso, a história do pequi também está ligada à valorização dos saberes tradicionais.
Dia do Pequi também destaca a importância econômica do fruto
Além de seu valor cultural, o pequi representa uma fonte de renda para famílias que trabalham com o extrativismo, o beneficiamento e a comercialização de produtos do Cerrado.
Durante a safra, a coleta dos frutos pode movimentar atividades econômicas em comunidades rurais.
O pequi é vendido in natura e também pode ser transformado em polpa, conservas, óleo e outros produtos.
Essas atividades criam oportunidades para pequenos comerciantes, produtores e trabalhadores envolvidos nas diferentes etapas da cadeia produtiva.
Na justificativa da lei estadual, a importância econômica do pequi foi destacada justamente por sua presença nos mercados e pela participação de coletores e comerciantes.
Entretanto, o fortalecimento dessa atividade depende de condições adequadas de produção, transporte, armazenamento e comercialização.
A valorização do fruto também precisa considerar uma remuneração justa para quem realiza o trabalho de coleta e processamento.
O extrativismo sustentável ajuda a preservar o Cerrado
O pequi é um exemplo de como a biodiversidade pode gerar benefícios econômicos sem exigir necessariamente a derrubada da vegetação nativa.
Quando realizado de forma responsável, o extrativismo pode contribuir para a geração de renda e incentivar a conservação dos pequizeiros.
Entre as boas práticas estão respeitar o período de amadurecimento dos frutos, evitar danos às árvores e manter parte da produção disponível para a fauna e para a regeneração natural.
A coleta excessiva, por outro lado, pode comprometer processos ecológicos e a reprodução das plantas.
Preservar o Cerrado significa manter as condições necessárias para que o pequizeiro continue produzindo frutos ao longo dos anos.
Também significa proteger outras espécies que dependem desse ambiente.
Pequi, Cerrado e Pirenópolis: uma relação com a natureza
O Cerrado é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta e abriga uma grande variedade de plantas adaptadas às condições climáticas e aos solos da região.
O pequizeiro é uma dessas espécies.
Sua presença está associada a diferentes formações vegetais do Cerrado, e seus frutos fazem parte da alimentação de animais silvestres.
As flores também oferecem recursos para polinizadores, incluindo morcegos e outros animais que participam da reprodução das plantas.
A conservação dessas interações é fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas.
Em Pirenópolis, município cercado por paisagens naturais e áreas rurais, a valorização do pequi dialoga com uma discussão mais ampla sobre a preservação ambiental.
O turismo, a produção rural e a gastronomia regional dependem, de diferentes maneiras, da qualidade dos recursos naturais.
Proteger espécies nativas também ajuda a preservar a identidade cultural da região.
O fruto é importante para a fauna do Cerrado
O pequi não alimenta apenas pessoas.
Seus frutos também são aproveitados por diferentes animais silvestres, que participam das relações ecológicas do bioma.
Algumas espécies podem contribuir para a dispersão das sementes, enquanto as flores do pequizeiro fornecem recursos para polinizadores.
Essas relações mostram que uma árvore pode desempenhar diversas funções dentro de um ecossistema.
Quando áreas de vegetação nativa são destruídas, não se perde apenas uma espécie vegetal, mas também parte das conexões que sustentam a biodiversidade.
A preservação do pequizeiro, portanto, vai além da garantia de um ingrediente tradicional na mesa dos goianos.
Curiosidade: pesquisadores desenvolveram pequi sem espinhos
Uma das novidades mais interessantes relacionadas ao fruto envolve pesquisas realizadas pela Embrapa em parceria com a Emater Goiás.
As instituições desenvolveram cultivares de pequi sem espinhos no caroço, com potencial para facilitar o consumo e o processamento industrial.
Entre elas está a cultivar GOBRS 102, apresentada como uma alternativa para ampliar as possibilidades de aproveitamento comercial do fruto.
A ausência de espinhos reduz o risco de acidentes durante o manuseio e pode facilitar a retirada da polpa.
O desenvolvimento dessas variedades também demonstra como a pesquisa científica pode contribuir para valorizar produtos nativos do Cerrado.
Isso não significa, entretanto, que os pequis tradicionais tenham deixado de possuir espinhos.
A maior parte dos frutos encontrados nas preparações tradicionais continua exigindo cuidado durante o consumo.
Celebrar o Dia do Pequi é valorizar a cultura e o Cerrado
A criação do Dia Estadual do Pequi representa um reconhecimento oficial de algo que os goianos conhecem há gerações: o fruto ocupa um lugar especial na cultura regional.
Seu sabor está presente em receitas tradicionais, sua coleta movimenta atividades econômicas e sua árvore integra a biodiversidade do Cerrado.
Em Pirenópolis, a data também serve como convite para valorizar os ingredientes nativos e reconhecer a importância das comunidades que mantêm vivas as tradições gastronômicas.
Mas a celebração não precisa ficar restrita à cozinha.
Ela também pode incentivar discussões sobre preservação ambiental, extrativismo sustentável e valorização dos pequenos produtores.
Afinal, não basta reconhecer o pequi como símbolo de Goiás se o ambiente onde ele cresce não for protegido.
Neste 23 de outubro, o Dia do Pequi celebra muito mais do que um fruto: celebra sabores, histórias, tradições e a relação dos goianos com o Cerrado.
E você, é do time que não dispensa um arroz com pequi ou daqueles que preferem passar longe do cheiro?



JV


