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4 de fevereiro de 2026

O olhar que observa o tempo em uma janela de Pirenópolis

O retrato de uma moradora de Pirenópolis revela a relação entre tempo, memória e cotidiano em uma casa ao lado do cemitério.
Miguel Armond
Miguel Armond

29 de dezembro de 2025 às 08:00

O olhar que observa o tempo em uma janela de Pirenópolis - IMG do dia 21

O cotidiano de Pirenópolis é feito de gestos simples, silêncios longos e personagens que parecem carregar, no corpo e no olhar, a própria história da cidade. A imagem registrada mostra uma senhora à janela de uma casa antiga, localizada ao lado do cemitério, observando o tempo passar com a tranquilidade de quem pertence profundamente àquele lugar.

Ao ser abordada para a fotografia, ela respondeu com naturalidade: “Se você não se importar em mostrar essa onça”. A frase, dita sem pressa, revela muito mais do que vaidade ou receio. Revela consciência do próprio tempo vivido, das marcas deixadas pela vida e da relação serena com a própria imagem. O fotógrafo respondeu dizendo que ela era linda — e o instante ficou suspenso entre palavra, gesto e silêncio.

A janela como ponto de observação

No cotidiano de Pirenópolis, as janelas têm papel simbólico. Elas conectam o dentro e o fora, o íntimo e o coletivo, o silêncio da casa com o movimento da rua. Nesta imagem, a janela azul, desgastada pelo tempo, emoldura um rosto que observa, mas não invade; que presencia, mas não interfere.

A senhora se apoia suavemente no parapeito, como quem acompanha o ritmo do dia sem pressa. O olhar direcionado para fora não busca algo específico, mas parece atento ao que acontece — uma presença constante, quase guardiã da paisagem ao redor.

Viver ao lado do cemitério

Morar ao lado do cemitério, em muitas cidades, carrega estigmas. Em Pirenópolis, porém, essa proximidade se integra ao cotidiano. O cemitério faz parte do percurso, da paisagem e da memória coletiva. Para quem vive ali há anos, ele deixa de ser apenas um lugar de despedidas e passa a ser mais um marco da vida cotidiana.

A presença dessa senhora, observando o tempo da janela, reforça essa naturalidade. Ela não parece marcada pela melancolia, mas pela convivência tranquila com o ciclo da vida. No cotidiano de Pirenópolis, a morte não é um tabu distante, mas parte da história, da tradição e da permanência.

Rugas como mapas do tempo

 

As marcas em seu rosto não são escondidas. Pelo contrário, aparecem com honestidade e dignidade. As rugas contam histórias que não precisam ser narradas em palavras. São mapas do tempo, registros silenciosos de experiências acumuladas ao longo dos anos.

Quando ela se refere a si mesma como “onça”, há força na metáfora. A onça, animal simbólico do Cerrado, representa resistência, presença e território. Ao usar essa imagem, a senhora se reconhece como parte da paisagem viva de Pirenópolis — forte, atenta e enraizada.

A fotografia como encontro

A imagem não nasce apenas do enquadramento, mas do encontro. O diálogo breve, a autorização espontânea e a resposta sincera criaram um momento de troca. No cotidiano de Pirenópolis, esses encontros são comuns, mas raramente percebidos com atenção.

A fotografia registra não apenas uma pessoa, mas uma relação: entre fotógrafo e moradora, entre passado e presente, entre a casa e a rua. É um instante que não se repete, mas que permanece como testemunho visual de uma forma de viver.

Pertencer ao lugar

Há pessoas que não apenas moram em um lugar — elas pertencem a ele. O modo como essa senhora olha o tempo sugere pertencimento. Ela não observa como visitante, mas como parte da própria estrutura invisível da cidade.

O cotidiano de Pirenópolis é construído por essas presenças discretas, que sustentam a memória viva da cidade. São olhares que atravessam décadas, casas que permanecem, janelas que continuam abertas, mesmo quando tudo ao redor muda.

Memória viva de Pirenópolis

Mais do que um retrato, a imagem é um registro de memória viva. Ela lembra que Pirenópolis não é feita apenas de festas, turismo e patrimônio arquitetônico, mas também de pessoas que observam o tempo com serenidade.

Essa senhora, à janela, é parte da história que não está nos livros, mas que sustenta a identidade da cidade dia após dia.

O olhar que observa o tempo em uma janela de Pirenópolis - IMG do dia 21
Foto: Miguel Armond

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