Para o pirenopolino roedor de pequi, o ano só começa de verdade quando o cerrado se veste de ouro – e não é do fruto ainda, é da florada! Nesses dias, quem percorre as estradas de terra percebe logo: os pés de pequi estão ficando graúdos, cobertos daquelas florzinhas amarelas que anunciam a fartura que está por vir.
A temporada ainda não abriu de fato, mas ela se anuncia com delicadeza e paciência. É um tempo de espera animada, de olhar para o pé e fazer a previsão: “Esse ano vai ser bom, olha a quantidade de flor!” Em alguns cantos mais quentes, tímidos pequis já começam a cair, ensaiando a festa que virá. Um aperitivo dourado, prometendo o grande banquete do cerrado.
É nesse período que os mais antigos começam a passar o recado, afiar o olhar e recordar os cuidados. Onde tem flor, logo haverá fruto. E onde o fruto se deixa cair, bem… a sabedoria do cerrado sussurra: “Olho vivo debaixo do pé!” Pois lá se esconde a cobra, esperta, aguardando o banquete de uma bicharada, entre eles os roedores que a temporada inevitavelmente traz.
Essa espera é parte da magia. É tempo de planejar a farra da colheita, combinar com a família, imaginar o saco de estopa que logo estará cheio, sentir a ansiedade crescendo junto com os frutos. É a preparação para o rito ancestral de adentrar o mato, colher o ouro do cerrado e levá-lo para a panela, onde o aroma se espalhará e a memória se fará viva.
Então fica o aviso, não para os roedores de pequi, mas para os ansiosos pelo sabor da terra: a natureza já deu o sinal. O espetáculo começou. É hora de contemplar a florada, admirar o dourado do cerrado, e preparar não só as panelas, mas o coração, para receber o pequi que vem chegando.






