A cidade tem história, beleza e gente trabalhadora. Já a Prefeitura tem várias perguntas a responder sobre saneamento, meio ambiente, cargos e saúde.
Pirenópolis faz 299 anos nesta quarta-feira. Quem conhece a cidade sabe o quanto há para celebrar: cachoeiras, casarões, cultura e uma população que trabalha para fazer tudo isso acontecer.
Mas o aniversário da cidade não pode virar um aplauso automático ao prefeito Nivaldo Antônio de Melo. Orgulho de Pirenópolis não significa aprovação de sua gestão.
A um ano dos três séculos, o município merece mais do que homenagens. Merece uma administração capaz de transformar seu enorme potencial em qualidade de vida.
A cidade das cachoeiras precisa falar de esgoto
O contraste incomoda. Segundo o Painel Saneamento Brasil, os dados de 2024 apontam 80,6% da população sem coleta de esgoto: 22.374 pessoas. O índice de esgoto tratado em relação à água consumida aparece em 0%.
A Saneago é a prestadora desses serviços, e a responsabilidade não é exclusiva da Prefeitura. Mas isso não dispensa Nivaldo de apresentar metas, cobrar investimentos e mostrar o que avançou.
A própria administração abriu, em 2024, uma consulta pública para uma parceria envolvendo água, esgoto e limpeza urbana. Dois anos depois, a pergunta é simples: o que essa iniciativa entregou ao morador?
Consulta pública é uma etapa. Saneamento funcionando é resultado. É pelo segundo que a população deve avaliar seus governantes.
Meio ambiente: um acordo que virou cobrança judicial
Em uma cidade cujo turismo depende da natureza, a estrutura ambiental deveria ser prioridade evidente.
Mas Pirenópolis teve seu credenciamento para licenciamento ambiental suspenso pelo conselho estadual em 2024. Em 2025, Nivaldo assinou um acordo com o Ministério Público de Goiás para reestruturar a área, com previsão de servidores efetivos, fiscais e concurso público.
Em setembro de 2026, veio a notícia de que o MPGO recorreu à Justiça para cobrar o cumprimento do acordo pelo município e pelo prefeito.
A publicação não detalha quais obrigações motivaram a ação. A cobrança política, porém, é incontornável: por que um compromisso assinado pelo prefeito precisou chegar à Justiça?
Nivaldo deve explicar o que cumpriu e o que está pendente. Preservar aquilo que sustenta a cidade exige estrutura, equipe e execução.
O cartão-postal também precisa de cuidado
O alerta já vinha de antes. Em março de 2024, a Semad anunciou uma suspensão temporária de novos licenciamentos sob sua competência, citando pressão do trânsito, degradação do Centro Histórico, lixo e esgoto.
Esse episódio não comprova que a restrição continue vigente. Comprova que os sinais de pressão sobre a cidade já estavam documentados.
Atrair visitantes sem planejar a infraestrutura é comprometer o próprio futuro turístico. Quem mora em Pirenópolis precisa de uma cidade que funcione também depois que o fim de semana termina.
Quem ocupa os cargos e quem fiscaliza?
Em setembro, o debate sobre comissionados e possíveis parentescos chegou à Câmara. O vereador Mozarto Dias Machado fez declarações sobre familiares de parlamentares na Prefeitura e estimou cerca de R$ 200 mil mensais envolvendo os cargos mencionados.
O valor não foi comprovado na reportagem, e as declarações não demonstram nepotismo. Mas justificam uma cobrança objetiva: quantos cargos existem, quanto custam e quais critérios orientam as nomeações?
A gestão deve responder com dados. A Câmara deve fiscalizar com independência. Dinheiro público exige explicação pública.
Na saúde, também faltam respostas nesta prestação de contas
Em junho, o Portal Piri noticiou uma medida cautelar do TCM-GO contra novos contratos e prorrogações de credenciamentos na saúde.
Não era uma condenação. Como a Prefeitura publicou documentos posteriores sobre o credenciamento, não cabe presumir que a suspensão permaneça vigente ou tenha sido descumprida.
Cabe exigir que a administração explique o desfecho e os ajustes realizados. Para quem depende do atendimento, a regularidade das contratações importa muito mais do que qualquer discurso.
Parabéns à cidade. Cobrança à Prefeitura.
Esses problemas não podem ser atribuídos integralmente a uma única gestão. Mas quem ocupa a Prefeitura precisa responder por sua parte e mostrar resultados. O passado não pode virar desculpa permanente.
Diante desse conjunto de questões, a gestão Nivaldo tem muito mais a explicar do que a comemorar.
Pirenópolis merece celebrar seus trabalhadores, sua cultura e sua história. Merece também cobrar um governo à altura de tudo isso.
A cidade não precisa provar que tem potencial. O prefeito é que precisa provar que sabe cuidar dele.
Parabéns pelos 299 anos, Pirenópolis. Que os 300 tragam mais motivos para comemorar a vida de quem mora aqui.




